O papel, tal como as pessoas, reage.
Texto por Marta Antunes sobre a exposição Então…gravei. de gonssalo
Às vezes, sentimos que a arte fala connosco. O que a arte nos diz é, geralmente, incompreensível, mas isso não é um problema. É importante que a arte fale connosco. Não importa, porém, o que ela nos diz, porque ouviremos como quisermos. No entendimento de que a arte fala connosco, é urgente notar, que ela fala apenas connosco. Fala apenas contigo. Muito provavelmente, nós não podemos ouvir, nem saber, o que a arte diz às outras pessoas.
Agora, se isto é verdade sobre a arte que não fala, de facto, não na medida em que nós falamos pelo menos, então imagine-se em relação à arte que realmente fala.
O título deste texto refere-se à primeira frase que o autor me disse no dia em que se encontrou comigo para me mostrar a exposição. As palavras são muito importantes para gonssalo, e ainda mais importantes para o projecto então... gravei, que tem vindo a desenvolver desde 2016. A palavra é um, ou o meio de concretização da realidade. Estas tomam decisões, aplicam mudanças, ditam carácteres. As palavras prendem pessoas, casam e divorciam pares, dão nomes. As palavras unem-nos ao outro e anunciam a nossa morte.
então... gravei é um projecto auto-referencial que originou de 37 gravações, feitas em 2016. Nestes registos, encontra-se uma porção da vida do artista, do seu quotidiano, das conversas que teve, das aulas que atendeu, dos filmes que viu, das festas que frequentou... Desde 2016, gonssalo trabalha em torno destas gravações, num projecto que se auto-sustenta, numa espécie de loop, ou acção circular, que nunca sendo igual, se regenera a si própria, numa constante espiral. O projecto dita as suas bifurcações e não o artista. Isto é importante para gonssalo, que o projecto tenha uma existência exterior a ele. Este trabalho não é um membro de gonssalo, não é uma perna ou um pé dele, este tem as suas próprias necessidades. É também imperativo referir que as peças expostas têm autonomia, elas falam, porque têm uma linguagem, e portanto estão vivas - são autónomas. Mas nenhuma delas tem nome, ou melhor, todas elas se chamam então... gravei, reforçando a ideia de que todas pertencem ao projecto e são o projecto - é uma relação orgânica, na qual não existe uma hierarquia entre o conceito, a formalização dos objectos e os objectos.
A exposição então... gravei, dividida em duas salas, recebe-nos com uma vitrine. Aqui, onde costumam estar obras institucionais e merchandise da faculdade, o artista intervém com duas peças. Isto é urgente, porque nos mostra, logo ao início, que gonssalo, o artista, e Gonçalo Silva a pessoa, têm intenções com a exposição destes objectos, que vão para além da uma mostra de obras, no contexto de uma exposição de arte. Aqui, o artista invade um dos mecanismos que a própria instituição tem para comunicar e escreve a sua realidade. Aplica a sua linguagem.
Nesta vitrine, o artista intervem com dois objectos, 60 livros com a transcrição total das gravações e 16 sacos de algodão (parte de uma série de 55 mil) com as primeiras 16 palavras da gravação, bordadas por si (embora, nem todas estejam bordadas, ainda). É importante, entender-se que muitos destes trabalhos se encontram incompletos, e que isso não é um problema para gonssalo. Tal como o projecto é circular e se auto-regenera, tudo faz parte desse processo. então... gravei. é uma linha sem princípio nem fim, é um continuum.
Quando questionado, sobre aceitar ajuda na formalidade destes objectos, como bordar os sacos, o artista nega por completo essa possibilidade. Tem de ser ele, ele é o autor e este trabalho tem muito a ver com a ideia de autoria, como o autor de um livro, por exemplo. Esse autor usa palavras para criar realidades e, sendo assim, ele é dono dessas realidades e aqui o exercício é o mesmo.
O segundo objecto a se encontrar nesta sala é uma televisão na qual aparece um scroll da transcrição da gravação, aludindo ao conceito e objecto do tele-ponto. Deste modo, gonssalo convida o espectador a vocalizar a linguagem que instaurou, concretizando-a. Em relação com esta peça, o artista fala-me de um exercício de performance que irá realizar, em que ele e mais 13 pessoas, lêem a totalidade da transcrição das gravações, divida em 13 partes, com um microfone, no pequeno palco de um auditório. É comum ouvir-se a expressão “não o quero dizer, porque senão torna-se real”, a linguagem, desta forma, mostra-se mais uma vez como algo criador de realidade. No entanto, é impossível não reconhecer aqui certas associações a algo de cariz religioso: o texto que instaura realidade, o autor que é criador, e está no centro, dessa realidade, os devotos que “sobem ao púlpito” para ler parte do texto, num microfone, para um público.
Quando estávamos a observar esta peça, Gonçalo, desta vez a pessoa, e não o artista, diz-me algo que talvez possa ser considerado um dos aspectos mais importantes de todo o projecto: “nós, se não escrevermos as coisas, acabamos por as perder”. Esta frase é crucial, no enquadramento conceptual da obra de gonssalo, pois este projecto é, como o artista me viria a dizer, um trabalho, essencialmente, sobre pessoas, mais especificamente, sobre as pessoas que considera “os seus”. “É um registo do meu meio, podia ter escolhido fazer retratos” afirma.
A última peça encontra-se numa sala que costumava ser uma cisterna. Este espaço encerra em si uma série de características que aferem aos trabalhos nele mostrados uma presença algo mística, etereal. Este caso não é diferente, aqui gonssalo expõe 37 impressões de 1,83 de altura (não coincidentemente, a sua altura), nas quais figuram as transcrições das 37 gravações, sobre as quais ecoa o som de todas as gravações sobrepostas. As impressões sobrepostas, seguras por um fio transparente que lhes afere o aspecto de que estão a flutuar, aliadas ao som de mil vozes, encenam na sala a sensação de se estar no meio de uma multidão de objectos, que sendo inanimados, têm vida.
No dia em que visitei a exposição do gonssalo, estava a chover. A humidade retida na cisterna fez com que as folhas se começassem a enrolar para dentro, como os ombros de alguém a encolher-se das pingas da chuva. A propósito disso, gonssalo não mostrou preocupação, disse- me: “o papel, tal como as pessoas, reage” e entramos na cisterna e encontramos 37 seres encolhidos da chuva, a conversar connosco.
Referências bibliográficas
TAMEN, Miguel - What Art is Like, in constant reference to the Alice Books. Aveiro : Harvard University Press, 2013.
Texto por João Francisco Reis sobre a exposição Então…gravei. de gonssalo
Qualquer exposição de arte contemporânea é, no momento atual, um desafio ao observador, quer este esteja ou não confortavelmente integrado num meio artístico, é premente que a criação artística contemporânea coloque a cada um de nós um problema. Muitos deles são ambientais, muitos deles políticos, uns conceptuais e outros sociais, mas independentemente de todas estas preposições, a arte apresenta-se-nos como um testemunho único de um determinado momento que se destaca de todos os outros. Um intervalo no tempo que se distingue e que confia, a cada um, uma experiência estética, intelectual ou sensorial que perdura na nossa memória como um objeto estranho àquilo que é sensível. É também com o trabalho do gonssalo que chegamos a esta ideia, e aquilo que nos é transmitido é um momento fixado no tempo, um intervalo da vida do artista, gravado, e reproduzido tautologicamente em diversos media. 
“então… gravei.” foi uma exposição individual apresentada na Faculdade de Belas-Artes na Universidade de Lisboa em setembro de 2020 e realizada a par da necessidade do artista gonssalo de, na continuidade da sua criação, apresentar o seu trabalho em contexto académico. Uma exposição que, pelas suas circunstâncias, vive das idiossincrasias do próprio meio - ou seja, da precariedade e dificuldade do meio estudantil, das obrigações académicas, ou das burocracias inerentes às instituições. Em conversa com o gonssalo foi-me dito diversas vezes que este trabalho não seria o mesmo sem a presença da sua condição estudantil, e isso importa porque, em determinado momento, em determinado lugar, a necessidade da criação torna-se presente. É a partir do momento da primeira gravação, como uma espécie de logbook, que “então… gravei.” se define, um trabalho que vive da banalidade, essa coisa socialmente perversa, mas ao mesmo tempo tão fértil em questões sociais, políticas e novamente — estudantis. 
Este projeto, onde as várias peças comoram o mesmo título, revolve sobre a palavra gravada num certo momento e num certo espaço, e ecoa pelas paredes da faculdade. Composta por quatro objetos e um quase-objeto, “então… gravei.” manifesta-se em livro, em saco de pano, em vídeo, em lona e, finalmente, em grandes folhas de papel branco. Todos com o mesmo texto, estes objetos foram criados a partir de uma única gravação. Vários livros e sacos de pano expostos numa montra encaram o visitante e despem-se para serem comprados. Os livros, em vários estádios da sua criação - cosidos, cortados, ou finalizados - mostram-nos o processo de criação do artista, que os cose um a um e, no final, os expõe, numa montra. Os sacos de pano idem. Partindo da suposição de que cada saco tem cada palavra do texto (e o texto tem 52.270 palavras), gonssalo cose-os e expõe-nos, mas expõe também o visitante a olhar para cada palavra e a descontextualizá-la, a olhá-la como unidade, a retirar-lhe o sentido e a atribuí-lo mais tarde. O vídeo de “então… gravei.” é a única de duas peças digitais da exposição, um scroll do texto que torna o espectador num leitor e lembra os antigos “teletextos” das televisões nacionais, um espaço negro de onde a luz transmitida é informação, um espaço de linguagem que consoante o momento, nos mostra uma história diferente, um horóscopo, um evento, um programa de televisão. 
A cisterna da faculdade, onde se encontra a última peça da exposição, está bem iluminada e, suspensas no ar como pessoas que coabitam um espaço estão longas folhas de papel, cada uma com uma parcela de texto - uma gravação. É talvez aqui que o visitante perderá mais tempo, na dança incansável entre as folhas suspensas, na descoberta por palavras, nomes ou sons que se destaquem. Este mar de gente presente nas folhas é também um mar de gente presente no texto, gente que, encarando de frente o visitante, o detém por momentos para trocar impressões, aquilo que as folhas nos dizem, dizem-no só a nós e irão dar-nos significados diferentes em vários momentos da exposição. 
O som teve também aqui um papel preponderante de afirmação do tom, a sobreposição das 37 gravações que compõe o projeto (o mesmo número das folhas) é também a sobreposição das vozes, do texto e das imagens mentais criadas por cada um. A sacralização do espaço é constantemente criada para ser destruída, o espectador entra numa nuvem sonora de acontecimentos que, mais ou menos, social ou culturalmente, pautam pela religiosidade quer seja através do tom das vozes, de certas músicas, de certos ambientes. É esta sacralização que talvez nos obrigue ao silêncio dentro da cisterna, que nos obriga a ouvir (as folhas e o som têm muito para dizer) e a calarmo-nos, qual sentimento de culpa católico.
“então… gravei.” poderá ser ao mesmo tempo o todo e a soma das suas partes; a palavra não será ordem, mas um dispositivo que auxilia a compreensão, e essa compreensão é da responsabilidade do observador. É este que escolhe entrar ou não no diálogo com a obra. A reciclagem de um texto que parece nascer da necessidade de criação torna-se, para cada um dos visitantes, numa procura pelo que lá está, a procura do significado de todas as palavras, ou a procura do significado da palavra como unidade única espácio-temporal. “foda-se.” destaca-se numa das folhas de papel. Independentemente de todas as outras palavras, tem o seu próprio significado para cada visitante. Para mim é esse “foda-se.” que obriga a um passo atrás, ao recuo e ao olhar o trabalho do gonssalo como um palimpsesto da linguagem. É assim, individualmente e independentemente que a exposição se apresenta, um oxímoro do transmedia, que o ultrapassa e que, em potência, se torna numa biblioteca de Babel onde todas as linguagens (mesmo não estando presentes), todos os acontecimentos, todas as vivências se reciclam e regeneram.  
O trabalho exposto em “então… gravei.” ganha significação porque, ao mesmo tempo, cria significação em cada um dos seus observadores, e é isso que o destaca e o torna importante para a criação artística contemporânea e atual. A criação de significado através da significação intrínseca do texto, das várias componentes copulativas do trabalho e da singularidade de cada palavra, ou mesmo de cada caractere, são a essência artística do projeto. É no intervalo entre a obra e o observador, a obra e o artista, a palavra e outra palavra que “Então… gravei.” se torna megalómano e monumental, através da singularidade de cada ação e de cada sinapse-ligação entre as várias unidades conceptuais. 
Volto à exposição do gonssalo sempre que entro na faculdade de Belas-Artes, volto a uma galeria que como que num piscar de olho me mostra um teleponto e me obriga à fixação e uma montra que insiste no processo. Volto a uma cisterna agitada, mas contida, cheia de pessoas, que são folhas e sons, vozes e letras, que insistem em sussurrar ao ouvido de quem as vê e de quem as ouve.

Cartazes por Diogo Tomás
Ficha Técnica
Apoio à Curadoria — João Francisco Reis, Marta Antunes
Produção — Gonçalo Silva
Apoio ao Desenvolvimento e Produção — Ana Manana
Apoio Técnico — Joana Lourenço
Design Divulgação — Diogo Tomás
Divulgação — Mariana Calado
Registo Visual — Filipa Machado e Gonçalo Silva
Montagem — Diogo Tomás, João Francisco Reis, Joana Lourenço
Apoio Institucional — Belas-Artes ULisboa
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